Ignacio de Campos

 

Ignacio de Campos é compositor, contrabaixista e gambista, doutorando em composição eletroacústica sob a orientação de Denise Garcia pela Unicamp. Fez cursos de composição com Stockhausen na Alemanha, Philippe Manoury, Kaija Sahariaho e Salvatore Sciarrino na França dentro do curso de Informática Musical do IRCAM – Paris. No Brasil fez cursos com José Augusto Mannis e Rodolfo Caesar entre outros. Especializado em composição de música eletroacústica já teve suas obras apresentadas em diversos países. Em 2001 ganha o 1o prêmio do Concurso Funarte de Composição Contemporânea na categoria música eletroacústica além do prêmio do público por sua obra TEXTVM. Já realizou trabalhos com live-electronics junto ao Itaú Cultural, Instituto Tomie Ohtake e IRCAM. Além do live-electronics e da música eletroacústica dedica-se à interação da eletrônica com instrumentos e projetos que envolvam interatividade e instalação sonora. É professor de acústica musical e composição eletroacústica na Faculdade Santa Marcelina em São Paulo.

 

Obras:

Valdrada (2004) : Valdrada é uma peça eletroacústica baseada em um conto de Italo Calvino integrante de "As Cidades Invisíveis". O texto ouvido na obra é de alguém recontando a história de Valdrada a partir de suas memórias, dando o caráter de espontaneidade e hesitação que, de maneira metafórica, vão levar a desdobramentos dos sons da voz e aos tratamentos e síntese dos outros sons. A obra inicia com sons gravados referentes à uma determinada paisagem sonora que, aos poucos, direciona-se para sonoridades impalpáveis e mergulha no mundo intangível do conto. O desenvolvimento sobre diferentes sonoridades permeadas pelo texto cria a aura imagética suscitada por Calvino e, assim como na narração, finaliza a viagem e volta ao real representado pela paisagem sonora retomada do início.

Expassum (1997): EXPASSVM em latim significa desdobrar, mas cria um falso cognato com "espaço" e a relação entre essas duas idéias antecipa um dos interesses da peça. O desdobramento espacial apresentado desde o início com o movimento circular de um som contrapõe-se ao desdobramento de seu espectro (origem presente). Bandas de frequências extraídas desse espectro são definidas de forma a salientar certas características não audíveis no som como um todo e polarizar grupos de notas que constituirão o "sentido" harmônico da obra. Os longos sons "harmonia-timbre" do início adquirem uma nova dimensão ao estriar o tempo criando o pulso e tornando-se polirritmia. A polirritmia se biparticiona em seus opostos criando a dialética entre os sons corpusculares, originados dos pulsos, e os sons harmonia-timbre (origem ausente). Assim, o "desdobrar" inscreve-se, durante toda a obra, na simultaneidade e na sucessão.


Textum (2000) : A idéia da obra é ser uma composição de vários fios trançados formando uma grande textura que se apresenta, aos poucos, como suporte e sobre o qual um jogo dialético irá acontecer. A obra desenvolve a relação de oposição e contraste entre sons harmônicos, originados e derivados de um som grave de piano, e sons ruidosos ou inarmônicos de origens diversas. Pontuando diversos momentos da peça estão elementos gestuais que ganham vida própria e contam sua própria história enquanto funcionam como ponte entre partes e sonoridades distintas.
Entrelaçado neste jogo textural, durante toda a obra, estão sons de vozes muito transformadas narrando textos não identificáveis, ou seja, funcionando como textura e suscitando a criação de narrativas individuais no ouvinte dependentes do imaginário sonoro de cada um. Assim como acontece com os dois grandes mundos sonoros da peça, as vozes criam relações dialéticas de sonoridades, mas não com outros objetos sonoros e sim, dentro de si mesma. Em lugares-chave as vozes são decompostas em suas vogais, necessariamente harmônicas, e suas consoantes, por natureza, ruidosas.
TEXTVM em latim significa compor, tecer e, por conseguinte, textura, mas cria um falso cognato com texto (elemento de maior pregnância da obra), antevendo suas intrincadas relações internas.

Coertejo para Rosenbloom (2002) : A peça foi o resultado de um desafio de se criar uma obra eletroacústica de um minuto costumeiramente proposto em minhas aulas de composição eletroacústica. Usei como base da narrativa para a construção da obra o poema Cortège for Rosenbloom de Wallace Stevens.

Motus Animi (1999) : A obra busca, através de processos de análise espectral e simulação de síntese por modulação de freqüência, exteriorizar as particularidades espectrais internas dos sons do violão num fluxo harmônico dinâmico. Paralelo a isso, uma intensa dinâmica de eventos se estabelece temporalmente, seja no instrumento, seja nos sons eletrônicos, acentuando a importância do “movimento” como foco central da peça.
O tempo do tape é estendido para permitir que pequenas variações internas do objeto musical sejam percebidas. Entretanto, para que não se altere o volume de informações estabelecido, a panorâmica toma corpo criando diálogos de movimentos.
O instrumento e o tape se complementam num único discurso sonoro, ora se complementando, ora servindo de expansão das possibilidades sonoras.
Dedicada ao violonista Frederico Grassano, essa peça busca retratar os “movimentos de alma” do intérprete.

Deposuit ... (2001) : A obra Deposuit... foi criada para dar base à coreografia A Deposição, de Patrícia Claro, com o intuito primeiro de trazer à tona a dramaticidade própria de todo o ambiente da deposição de Cristo, já que seu trabalho coreográfico deriva das posições e expressões das pessoas retratadas nos quadros de Giotto e van der Weyden sobre a deposição. Paralelamente a isso, a elaboração musical se deu a partir de longas explorações de alguns materiais sonoros selecionados: o som de uma única bolinha de cerâmica caindo no chão, a fricção de duas pastilhas de cerâmica, a rolagem de muitas dessas bolinhas sobre uma pele de tímpano, sons de dois japanese singing bowls e alguns fragmentos de vozes cantadas extraídas de coros barrocos. Tais explorações se deram principalmente através do software Csound utilizando técnicas muito variadas como a adaptação da idéia do ‘glissando sem fim’ de Risset (Shepard tone) para uso com amostras de áudio (a bolinha de cerâmica), síntese granular e convolução.